segunda-feira, 4 de junho de 2007

nossas referências próprias

Ivone Mello disse...

Partilho aqui algumas reflexões. Sempre que escuto 'nós ocidentais' me pergunto: nós quem? Por que nos identificarmos com esse rótulo, se trazemos em nosso imaginário, modo de vida e expressão cultural elementos vários originados de nossas raízes mestiças? Falo do brasileiro comum, que não encontra nas etnias citadas no texto uma identidade única, mas referências múltiplas de suas origens.
Não encontrar uma forma de definir a identidade mestiça, não exige uma adesão a um ou outro modelo, mas nos recoloca a possibilidade de assumir esse lugar mesmo da multiplicidade e da abertura à uma cultura multireferencial.
Como educadora, percebo que a saída do lugar de reprodução do discurso hegemônico eurocêntrico se coloca ao lado da elaboração de nossas referências próprias, ao mesmo tempo em que, como o texto aponta, nos coloca a importância de participarmos ativamente da proteção e promoção das expressões culturais diversas.

Ivone Mello
windzen@gmail.com

1 de Junho de 2007 14:26

afirmação dos saberes tradicionais

Wagner Vinhas disse...

Olá Pessoal

Gostaria de enfatizar, inicialmente, a importância desse processo dialógico sobre um tema que nos fala tão diretamente, haja visto que, a diversidade cultural participa indiscutivelmente da cultura americana.

A partir das questões provocadoras do debate, estou tentado acreditar que o texto, embora cite a relação de poder constituída desde o projeto de colonização, ocorrido não apenas no continente americano, mas em outros continentes como África, Índia, Ásia etc., não menciona as novas formas de poder inseridas no processo de pós-colonização. Tomo como exemplo, o processo de valorização das culturas tradicionais em meados do século vinte, fato este ocorrido em consonância com a consolidação da industria cultural e do turismo. Ao citar este evento na história ocidental, também o faço para lembrar que o processo de curadoria realizado pelos museus europeus, no qual tomo o Louvre, como uma das expressões mais significativas, vem ocorrendo desde as primeiras invasões européias aos demais continentes. É importante recorrermos aos estudos sobre os museus para enfatizar o caráter pedagógico que desempenham ao organizarem cronologicamente e tipologicamente as diferentes culturas existentes.

Tomando o movimento modernista no Brasil, avaliando sua possível abertura em relação aos intelectuais brasileiros, é importante também considerarmos o momento político dessa época, neste sentido, pensarmos a importância desse movimento para a construção de uma identidade nacional, sem desconsiderarmos a sua importância épica, incluirmos a noção de intelectuais aliados à necessidade de projetar um ideal de integração nacional. O que leva, por exemplo, o samba sair de uma posição marginalizada, para um lugar de símbolo da cultura nacional? Isso, considerando as mais diversas manifestações que ocorrem no território nacional.

Finalmente, tomando como ponto de partida as considerações expostas neste comentário, penso que a confrontação desse lugar de poder das elites brancas e que se afirmam como herdeiras da cultura européia, é um ponto a ser considerado. Não podemos deixar de considerar as ameaças de hoje e que sempre estiveram presentes na desvalorização do SER dos povos colonizados. Neste sentido, a afirmação dos saberes tradicionais não pode ser considerada apenas através de uma possível essência, desconsiderando a dinâmica que vem ocorrendo. Desse modo, não caberia aos intelectuais ou promotores culturais, a palavra final sobre o que é legítimo enquanto saber ou cultura, mas aqueles que a produzem dentro de um cenário mais amplo, ou seja, na experiência direta com o que está sendo vivido e construído.

1 de Junho de 2007 13:58

Visão sobre os Indígenas

sebastian disse...

É muito bom estarmos dialogando sobre este tema.

Espero que o diálogo possa se enriquecer ainda mais durante o encontro presencial onde espero encontrar pessoas das diferentes regiões de Brasil, das diferentes etnias, de diferentes culturas e saberes.
Particularmente estou ainda muito preocupado com a visão geral que os “brancos” tem sobre os indígenas... E particularmente os brasileiros sobre os indígenas que vivem neste território... Por exemplo, na Bahia tem mais de 25.000 adiados... Mas para a maior parte das pessoas nem sequer são índios!
Muitas vezes ate os próprios indígenas da Amazônia descriminam os indígenas do nordeste, sem sequer perceber que estes poderiam estar colaborando, desde suas experiências de resistência, para que a “COLONIZACAO” que continua chegando seja para os AMAZÔNICOS um processo com maior visão critica.

Compartilho duas observações para provocar o dialogo!

1) No texto se menciona “a alteração da consciência”... Eu particularmente nunca ouvi índio falar assim - certo que seria desrespeitoso falar de ALUCINOGENOS como comumente se escuta por ai... Mas acredito que alguns xamas, após dialogo intercultural, já estão usando uma terminologia mais bonita: “Expansão de consciência”... Já que para muitos índios, esta nossa forma “normal” de viver parece que é uma forma quase sem consciência... E os rituais ou plantas poderiam nos ajudar a viver um pouco mais conscientes.

2) Desde que se criaram as escolas indígenas na Bahia, ainda há dificuldades de implantar essas ações... Ainda exige-se que os diretores das escolas indígenas sejam do padrão “branco”... Às vezes exigem o nível superior de estudo, mas ainda não houve tempo suficiente e possibilidades reais para os indígenas obter essa formação; às vezes exigem concurso publico, sendo que nunca foi facilitado aos indígenas chegar ate esse lugar... Embora a diretrizes sejam de dar valor ao próprio, ao especifico a lei morde o rabo... Existem muitos diretores de escola indígenas "brancos” quando para os indígenas já há indígenas que para seus valores e tradição (o que “branco” chama de educação) estão mais que preparados a adequados a seus desejos... Porque os conhecimentos tradicionais existem hoje pela tradição e não pela alfabetização, concurso ou graduação... Programas como AÇÃO GRIO estão chegando especialmente bem nesse lugar, porque o sistema publico escolar esta criando uma elite dentro das aldeias... onde a renda por capita é quase inexistente....existem professores que ganham mais de um salário... Porque não dar esse recurso para a comunidade administrar seguindo sua própria organização social e critérios, respeitando assim o articulo da constituição 231 e 232!

sebastian.gerlic@gmail.com

31 de Maio de 2007 20:47

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Texto referência - versão espanhol

CONOCIMIENTOS TRADICIONALES EN BRASIL Y EN AMÉRICA LATINA: UNA AGENDA DE RESISTENCIA Y CREATIVIDAD

José Jorge de Carvalho

I. EUROCENTRISMO COLONIAL Y DESCALIFICACIÓN DE LOS CONOCIMIENTOS TRADICIONALES

Más que nunca, tal vez en toda la historia de América Latina, vivimos un momento de cuestionamiento serio y profundo del modelo cultural eurocentrista que nos ha caracterizado desde los primeros tiempos de la colonia. La formación de las sociedades coloniales en el Nuevo Mundo se dio bajo el signo de la descalificación radical de todo el saber de los innumerables pueblos que dieron origen a nuestro continente. La llamada «conquista» de la América Española (o el llamado «descubrimiento» de la América Portuguesa) consistió en el trabajo negativo de convertir los cientos de pueblos diferentes que vivían en esas latitudes llamados «indios». El término indio fue enseguida asociado a la idea de «salvaje», esto es, aquel que vive en la selva y por lo tanto no posee ni cultura ni saber sistematizado o relevante; o entonces la idea de «bárbaro», esto es, aquel que sigue estándares culturales inaceptables, porque no son civilizados. En el caso del salvaje, la descalificación se dio por la infantilidad: se trataba de inculcar en su mente los valores y el saber occidental para humanizarlos por primera vez. Ya en el caso del bárbaro, estigma que alcanzó a la mayoría de las poblaciones originarias del Nuevo Mundo (principalmente cuando comenzó a quedar claro para los invasores que ellas resistirían al proyecto de dominación que les había sido impuesto), la tarea civilizadora pasaba por una doble intervención descalificadora: desacreditar el saber y los valores que ellos practicaban para enseguida «re humanizarlos» (a la fuerza, básicamente) por medio de la imposición del saber y de los valores occidentales dominantes.

El término «indio» representó, de esta forma, la primera señal de una pérdida o sofocamiento de los referentes simbólicos propios de los grupos humanos con quien los españoles y portugueses se encontraron al comienzo de la colonización. A menos de 50 años después del inicio de la subyugación de los grupos originales del continente en el cual vivimos, los colonizadores europeos comenzaron a traer también miles de africanos esclavizados para el trabajo forzado, año a año, por más de 300 años (llegando a más de 12 millones de personas). Como en el caso de los pueblos originales, las poblaciones esclavizadas pertenecían a centenas de naciones diferentes que vivieron por siglos en sus territorios tradicionales en el interior del continente africano. La descalificación de los africanos esclavizados (tanto en su sabiduría como en su humanidad en general) fue, desde el comienzo más dramática que la de los indígenas, ya que ellos tuvieron muchos menos elementos propios en que apoyarse para comenzar un movimiento mínimo de resistencia contra el horroroso régimen al que fueron sometidos contra su voluntad.

Las historias de la colonización descalificadora y del genocidio físico y simbólico, de un lado; y de la resistencia cultural a las violencias y a la represión, del otro lado; y finalmente, la revalorización de los espacios simbólicos de autonomía propios, fueron seguramente específicos para cada una de las centenas de naciones indígenas. Y todas ellas, a su vez, fueron diferentes de las historias de dominación y resistencia vividas por los esclavos y ex-esclavos africanos en América.

Las naciones indígenas contaban por lo menos con muchos conocimientos útiles para su sobrevivencia frente a una situación de tamaña adversidad, como los detalles de la fauna y de la flora y la familiaridad con el territorio en general, cuya dimensión sagrada intentaron preservar, a pesar de la violencia simbólica propia de la colonización. Ya los africanos esclavizados tuvieron que rehacer casi enteramente su saber y los códigos culturales de origen, desarrollando dos estrategias básicas que distinguen las tradiciones culturales de la Diáspora afroamericana hasta hoy: la fuga del régimen esclavo, formando las sociedades quilombolas (modelo que existió simultáneamente en todos los países esclavistas del Nuevo Mundo desde el siglo XVI); o la sobrevivencia en el interior del régimen esclavista, negociando expresiones simbólicas con los opresores blancos occidentales y, a partir de ahí, recomponiendo y recreando el saber propio que les permitió crear tradiciones culturales que distinguen las comunidades afroamericanas hasta hoy.

Todos estos grupos humanos se encuentran ahora en un proceso intenso de retomada de sus conocimientos y valores culturales y sociales tradicionales para afirmarlos frente a la sociedad nacional en igualdad de condiciones con los conocimientos de origen europeo, dominantes y utilizados para representar a la nación brasileña, tanto en los espacios internos como en los externos. El presente taller se incluye precisamente dentro del espíritu de esa retomada por la dignidad de todo el saber y por la ecuanimidad en la representación cultural.

Mismo bajo el signo de la resistencia, de la recreación y de la hibridación cultural constante, nuestras sociedades se consolidaron, hasta muy recientemente, como sociedades enteramente eurocéntricas en el modo como las elites sociales, económicas y políticas proyectaron nuestros Estados. Nuestras instituciones públicas de mayor prestigio, tales como museos, universidades, academias, están marcadas por la afirmación de la cultura occidental y por el recalque de las culturas indígenas y africanas. Por otro lado, lo que caracteriza al momento actual, de prácticamente todos los países de América del Sur, es el proceso de retomada del saber artístico y científico propio de nuestros pueblos tradicionales.

El horizonte de justificación moral de la colonización y de la esclavitud fue justamente repetir incesantemente que los indígenas y los negros eran ignorantes, incapaces, incultos, embrutecidos. Peor aún, que desconocían las formas «superiores» de la cultura, que no tenían arte sofisticado, que no habían desarrollado conocimiento científico; que eran supersticiosos en lugar de religiosos y que sus formas de espiritualidad eran inferiores, primitivas, fetichistas, animistas, de ahí la necesidad de su conversión (forzada, claramente) al catolicismo y a la correspondiente represión, que duró siglos, de sus formas tradicionales de religión y de espiritualidad. Las tradiciones xamânicas, las bebidas y las formas propias de alteración de la consciencia y los complejos rituales indígenas fueron perseguidos por los sacerdotes (persecución que continúa aún hoy, en muchas naciones indígenas). Y en el caso de los afro descendientes, las religiones de matriz africana también fueron perseguidas, al punto de que hasta hace treinta años los terreros de candomblé, xangô, batuque, mina y otras formas de cultos afrobrasileños eran obligados a retirar un permiso en la Comisaría de Juegos y Diversiones cada vez que realizaban una fiesta pública para los dioses africanos y para las entidades de los cultos sincréticos (como el umbanda, la pajelança, la jurema, etc).

Abolida la esclavitud y declarada la República, la naturaleza de esa descalificación cultural y simbólica generalizada continuó sin mayores cambios hasta casi la mitad del siglo XX. La verdad, se puede decir que a lo largo de todo el siglo pasado, la elite brasileña negó los conocimientos tradicionales de otras poblaciones, en bases semejantes. Las comunidades quilombolas, los campesinos, los pueblos de la Selva (ribereños, extrativistas), los gitanos – en fin, todos los grupos que detienen varios tipos de saber y artes tradicionales (o no académicas) fueron «folclorizados» (en un sentido paternalista y condescendiente del término, sin querer criticar el empeño sincero y erudito de muchos investigadores que se definen como folcloristas) según el entendimiento de la cultura erudita. Sus prácticas culturales y su saber tradicional fueron definidos como algo que remetía a nuestro «pasado», que nos reconectaba con nuestras «raíces», pero siempre evaluados como distantes y subalternos con relación a la modernización cultural que se imponía (y aún se impone hasta hoy) como meta para las instituciones oficiales del Estado.


II. RESISTENCIA DE LOS PUEBLOS TRADICIONALES E INCLUSIÓN CONSERVADORA DE LAS ELITES

Un primer momento de revalorización de los conocimientos tradicionales de nuestras comunidades se dio por medio de una concientización, de una parte de la elite intelectual blanca dominante, de que esos conocimientos son parte integrante y constitutiva de nuestras naciones. De esta forma, desde el comienzo del siglo XX, asistimos a un movimiento constante, todavía que minoritario, de «coleta», «rescate» e incorporación de las culturas indígenas y africanas en los archivos, museos y instituciones de enseñanza e investigación de nuestros países. En el caso brasileño, las décadas del treinta y cuarenta del siglo pasado fueron emblemáticas de esa primera revisión del eurocentrismo exclusivo que aún hoy es predominante en la política cultural de nuestra elite estatal. Este modelo de incorporación de la diversidad cultural del país admitía el símbolo indígena o africano, pero siempre absorbido por el paradigma epistémico occidental. El intelectual blanco eurocéntrico evaluaba la mayor o menor importancia de los conocimientos tradicionales no occidentales de acuerdo con los parámetros artísticos y científicos occidentales. Enseguida, procedía a incluirlos en el rol de los símbolos culturales que él definía como «nacionales» o meramente «regionales» a partir de esa evaluación, de la cual los artistas populares estaban previamente excluidos.

El movimiento modernista en Brasil fue paradigmático de esa absorción selectiva y excluyente. Los conocimientos tradicionales eran documentados y también digeridos, pero los creadores y los que detenían esos conocimientos continuaban fuera del proceso de decisión y también del acceso pleno a los bienes y servicios que el Estado concedía a esos intelectuales sensibles a la diferencia estética cognitiva y simbólica hasta entonces negada. Este primer modelo de incorporación de la diferencia cultural puede ser caracterizado como un modelo fundamentalmente monológico de conceptualización y promoción de la diversidad cultural. Dada su larga historia, podemos identificarlo aún hoy en muchas políticas de relación con las comunidades tradicionales en las que sus conocimientos son valorizados y erigidos a condición de emblemas o íconos nacionales muy cerca de un tipo de multiculturalismo unilineal, o liberal: la diversidad cultural se presenta por parte del Estado, pero la jerarquía de decisión y la hegemonía epistémica no cambian. Es la cultura occidental que tiene los parámetros para valorizar la diversidad que incluye o no la occidental; este movimiento siempre es de mano única, sin darles a las comunidades que detienen los conocimientos tradicionales la oportunidad de probar sus parámetros propios para evaluar los conocimientos occidentales hegemónicos. Desde el punto de vista conceptual, podemos decir que la diversidad cultural pasa a ser celebrada, pero a un precio de contener y sofocar la diferencia. Se acepta la pluralidad de las manifestaciones culturales, manteniendo la exclusividad de los criterios de evaluación de la eficacia – estética, simbólica, científica – de los elementos que componen esta pluralidad.

Insistiendo también en este punto crucial, afirmar la diversidad, solo que como es colocado en la pauta actual de la industria cultural transnacional, no desafía necesariamente los exclusivismos, los privilegios y los eurocentrismos arraigados desde hace siglos. Por el contrario, hasta puede fortalecerlos, en la medida en que elementos exóticos son incorporados a la matriz cultural dominante y las elites pueden presentar una imagen interna y externa del país como diversa sin alterar la jerarquía de prestigio y poder fundador de la nación brasileña como cristiana y occidental. Para construir una diversidad cultural que no sea superficial, es necesario darles voz a los maestros de los conocimientos tradicionales, dividir con ellos, no solo un lugar en el escenario, sino la concepción y la construcción del propio escenario.


III. REVALORIZACIÓN INTERCULTURAL Y DIÁLOGO HORIZONTAL ENTRE EL SABER

Una nueva retomada surge ahora, con la creación de la Secretaría de la Identidad y la Diversidad Cultural y la plataforma internacional generada por la Convención de la Diversidad de la UNESCO, en donde los que detienen los conocimientos tradicionales comienzan a hacer parte del proceso de decisión en lo que respecta a la reconstrucción del perfil de la diversidad cultural de Brasil. Movimientos análogos, algunos más amplios, otros más restringidos, vienen desarrollándose paralelamente en otros países sudamericanos, como en Bolivia, en Ecuador y en Venezuela. En el momento en que el proceso de incorporación pasa a ser dialógico, el modelo de multiculturalismo conservador da lugar a un paradigma de multiculturalismo crítico, en que los conocimientos tradicionales dejan de ser solo objetos de estudio, o productos artísticos o simbólicos para ser promovidos y pasan a funcionar también como epistemologías alternativas a las epistemologías occidentales.

Texto de Referência

CONHECIMENTOS TRADICIONAIS NO BRASIL E NA AMÉRICA LATINA: UMA AGENDA DE RESISTÊNCIA E CRIATIVIDADE

José Jorge de Carvalho

I. EUROCENTRISMO COLONIAL E DESQUALIFICAÇÃO DOS CONHECIMENTOS TRADICIONAIS

Mais do que nunca talvez em toda a história da América Latina, vivemos um momento de questionamento sério e profundo do modelo cultural eurocêntrico que tem nos caracterizado desde os primeiros tempos da colônia. A formação das sociedades coloniais no Novo Mundo se deu sob o signo da desqualificação radical de todos os saberes dos inúmeros povos originários do nosso continente. A chamada “conquista” da América Espanhola (ou o chamado “descobrimento” da América Portuguesa) consistiu no trabalho negativo de converter as centenas de povos diferentes que viviam nessas latitudes em “índios”. O termo índio foi logo em seguida associado à idéia de “selvagem”, isto é, aquele que vive na selva e portanto não possui nem cultura nem saber sistematizado ou relevante; ou então à idéia de “bárbaro”, isto é, aquele que segue padrões culturais inaceitáveis, porque não civilizados. No caso do selvagem, a desqualificação se deu pela infantilização: tratava-se de inculcar na sua mente os valores e saberes ocidentais para humanizá-lo pela primeira vez. Já no caso do bárbaro, estigma que alcançou a maioria das populações originárias do Novo Mundo (principalmente quando começou a ficar claro para os invasores que elas resistiriam ao projeto de dominação que lhes havia sido imposto), a tarefa civilizatória passava por uma dupla intervenção desqualificadora: desacreditar os saberes e valores que eles praticavam para logo “re-humanizá-los” (à força, basicamente) através da imposição dos saberes e valores ocidentais dominantes.

O termo “índio” representou, assim, o primeiro sinal de uma perda ou sufocamento dos referentes simbólicos próprios dos grupos humanos com quem os espanhóis e portugueses se encontraram no início da colonização. A menos de 50 anos após o início da subjugação (ou indianização) dos grupos originários do continente em que vivemos, os colonizadores europeus começaram a trazer também milhares de africanos escravizados para o trabalho forçado, anos após ano, por mais de 300 anos (chegando a mais de 12 milhões de pessoas). Como no caso dos povos originários, as populações escravizadas pertenciam a centenas de nações diferentes que viviam por séculos em seus territórios tradicionais no interior do continente africano. A desqualificação dos africanos escravizados (tanto em sua sabedoria quanto em sua humanidade em geral) foi, de início, ainda mais dramática que a dos indígenas, visto que eles tiveram muito menos elementos próprios em que se apoiar para iniciar um movimento mínimo de resistência contra o horroroso regime a que foram submetidos contra a sua vontade.

As histórias da colonização desqualificadora e do genocídio físico e simbólico, de um lado; e da resistência cultural às violências e repressões, de outro lado; e finalmente, da revalorização dos espaços simbólicos de autonomia próprios, foram certamente específicas para cada uma das centenas de nações indígenas. E todas elas, por sua vez, foram diferentes das histórias de dominação e resistência vividas pelos escravos e ex-escravos africanos nas Américas.

As nações indígenas contavam pelo menos com vários conhecimentos úteis para a sua sobrevivência diante de uma situação de tamanha adversidade, como os detalhes da fauna e da flora e a familiaridade com o território em geral, cuja dimensão sagrada tentaram preservar, apesar da violência simbólica própria da colonização. Já os africanos escravizados tiveram que refazer quase inteiramente seus saberes e códigos culturais de origem, desenvolvendo duas estratégias básicas que distinguem as tradições culturais da Diáspora afro-americana até hoje: ou a fuga do regime escravo, formando as sociedades quilombolas (modelo que existiu simultaneamente em todos os países escravistas do Novo Mundo desde o séc. XVI); ou a sobrevivência no interior do regime escravista, negociando expressões simbólicas com os opressores brancos ocidentais e, a partir daí, recompondo e recriando saberes próprios que lhes permitiu criar tradições culturais que distinguem as comunidades afro-americanas até hoje.

Todos esses grupos humanos encontram-se agora em um processo intenso de retomada de seus conhecimentos e valores culturais e sociais tradicionais para afirmá-los diante da sociedade nacional em igualdade de condições com os conhecimentos de origem européia, dominantes e utilizados para representar a nação brasileira, tanto nos espaços internos como nos externos. A presente oficina se insere precisamente dentro do espírito dessa retomada pela dignidade de todos os saberes e pela equanimidade na representação cultural.

Mesmo sob o signo da resistência, da recriação e da hibridação cultural constante, nossas sociedades se consolidaram, até muito recentemente, como sociedades inteiramente eurocêntricas no modo como as elites sociais, econômicas e políticas projetaram os nossos Estados. Nossas instituições públicas de maior prestígio, tais como museus, universidades, academias, estão marcadas pela afirmação da cultura ocidental e pelo recalque das culturas indígenas e africanas. Por outro lado, o que caracteriza o momento atual, de praticamente todos os países da América do Sul, é o processo de retomada dos saberes artísticos e científicos próprios dos nossos povos tradicionais.

O horizonte de justificativa moral da colonização e da escravidão foi justamente repetir incessantemente que os indígenas e os negros eram ignorantes, incapazes, incultos, embrutecidos. Pior ainda, que desconheciam as formas “superiores” de cultura, que não tinham arte sofisticada, que não haviam desenvolvido conhecimento científico; que eram supersticiosos em lugar de religiosos e que suas formas de espiritualidade eram inferiores, primitivas, fetichistas, animistas, daí a necessidade de sua conversão (forçada, claramente) ao catolicismo e a coetânea repressão, que durou séculos, de suas formas tradicionais de religião e de espiritualidade. As tradições xamânicas, as bebidas e formas próprias de alteração da consciência e os complexos rituais indígenas foram perseguidos pelos sacerdotes (perseguição que continua até hoje, em muitas nações indígenas). E no caso dos afro-descendentes, as religiões de matriz africana também foram perseguidas, a ponto de que até trinta anos atrás os terreiros de candomblé, xangô, batuque, mina e demais formas de cultos afro-brasileiros eram obrigados a retirar um alvará da Delegacia de Jogos e Diversões a cada vez que realizavam uma festa pública para os deuses africanos e para as entidades dos cultos sincréticos (como a umbanda, a pajelança, a jurema, etc).

Abolida a escravidão e declarada a República, a natureza dessa desqualificação cultural e simbólica generalizada continuou sem maiores mudanças até quase a metade do século XX. Na verdade, pode-se dizer que ao longo de todo o século passado, a elite brasileira negou os conhecimentos tradicionais de outras populações, em bases semelhantes. As comunidades quilombolas, os camponeses, os povos da floresta (ribeirinhos, extrativistas), os ciganos – enfim, todos os grupos detentores de vários tipos de saberes e artes tradicionais (ou não-acadêmicas) foram “folclorizados” (em um sentido paternalista e condescendente do termo, sem querer aqui criticar o empenho sincero e mesmo erudito de muitos pesquisadores que se definem como folcloristas) segundo entendimento da cultura erudita. Suas práticas culturais e seus saberes tradicionais foram definidos como algo que remetia ao nosso “passado”, que nos reconectava com nossas “raízes”, porém sempre avaliados como distantes e subalternos em relação à modernização cultural que se impunha (e ainda se impõe até hoje) como meta para as instituições oficiais do Estado.

II. RESISTÊNCIA DOS POVOS TRADICIONAIS E INCLUSÃO CONSERVADORA DAS ELITES

Um primeiro momento de revalorização dos conhecimentos tradicionais das nossas comunidades deu-se através de uma conscientização, de uma parte da elite intelectual branca dominante, de que esses conhecimentos são parte integrante e constitutiva das nossas nações. Assim, desde o início do séc. XX, assistimos a um movimento constante, ainda que minoritário, de “coleta”, “resgate” e incorporação das culturas indígenas e africanas nos arquivos, museus e instituições de ensino e pesquisa dos nossos países. No caso brasileiro, as décadas de trinta e quarenta do século passado foram emblemáticas dessa primeira revisão do eurocentrismo exclusivo que ainda hoje é predominante na política cultural da nossa elite estatal. Esse modelo de incorporação da diversidade cultural do país admitia o símbolo indígena ou africano, porém sempre absorvido pelo paradigma epistêmico ocidental. O intelectual branco eurocêntrico avaliava a maior ou menor importância dos conhecimentos tradicionais não-ocidentais de acordo com os parâmetros artísticos e científicos ocidentais. Em seguida, procedia a incluí-los no rol dos símbolos culturais que ele definia como “nacionais” ou meramente “regionais” a partir dessa avaliação, da qual os artistas populares estavam previamente excluídos.

O movimento modernista no Brasil foi paradigmático dessa absorção seletiva e excludente. Os conhecimentos tradicionais eram documentados e mesmo digeridos, mas os criadores e detentores desses conhecimentos continuavam de fora do processo decisório e também do acesso pleno aos bens e serviços que o Estado concedia a esses intelectuais sensíveis à diferença estética cognitiva e simbólica até então negada. Esse primeiro modelo de incorporação da diferença cultural pode ser caracterizado como um modelo fundamentalmente monológico de conceituação e promoção da diversidade cultural. Dada sua longa história, podemos identificá-lo ainda hoje em muitas políticas de relação com as comunidades tradicionais em que os seus conhecimentos são valorizados e erigidos à condição de emblemas ou ícones nacionais muito perto de um tipo de multiculturalismo unilinear, ou liberal: a diversidade cultural é apresentada pelo Estado, mas a hierarquia decisória e a hegemonia epistêmica não mudam. É a cultura ocidental que detém os parâmetros para valorizar a diversidade que inclui o não- ocidental; todavia, esse movimento é sempre de mão única, não sendo dada às comunidades detentoras de conhecimentos tradicionais a chance de testar seus parâmetros próprios para avaliar os conhecimentos ocidentais hegemônicos. Do ponto de vista conceitual, podemos dizer que a diversidade cultural passa a ser celebrada, mas a preço de conter e sufocar a diferença. Aceita-se a pluralidade de manifestações culturais, mantendo porém a exclusividade dos critérios de avaliação da eficácia – estética, simbólica, científica – dos elementos que compõem essa pluralidade.

Insistindo ainda nesse ponto crucial, afirmar a diversidade, apenas, como é colocado na pauta atual da indústria cultural transnacional, não desafia necessariamente os exclusivismos, os privilégios e os eurocentrismos arraigados há séculos. Pelo contrário, pode até fortalecê-los, na medida em que elementos exóticos são incorporados à matriz cultural dominante e as elites podem apresentar uma imagem interna e externa do país como diverso sem alterar a hierarquia de prestígio e poder fundante da nação brasileira como cristã e ocidental. Para construir uma diversidade cultural que não seja superficial, é preciso dar voz aos mestres dos conhecimentos tradicionais, dividir com eles, não apenas um lugar no cenário, mas a concepção e a construção do próprio cenário.

III. REVALORIZAÇÃO INTERCULTURAL E DIÁLOGO HORIZONTAL ENTRE SABERES

Uma nova retomada surge agora, com a criação da Secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural e a plataforma internacional gerada pela Convenção sobre a Proteção da Diversidade das Expressões Culturais da UNESCO, em que os detentores dos conhecimentos tradicionais começam a fazer parte do processo decisório no que diz respeito à reconstrução do perfil de diversidade cultural da América do Sul. Vários movimentos, alguns mais amplos, outros mais restritos, vêm ocorrendo principalmente no Brasil e na Bolívia, no Equador, na Colômbia e na Venezuela. Como ponto de partida, a Convenção da UNESCO reconhece que “a diversidade das expressões culturais, incluindo as expressões culturais tradicionais, é um fator importante, que possibilita aos indivíduos e aos povos expressarem e compartilharem com outros as suas idéias e valores”. Logo, no Artigo 4, a seguinte definição é apresentada: “”Diversidade cultural” refere-se à multiplicidade de formas pelas quais as culturas dos grupos e sociedades encontram sua expressão. Tais expressões são transmitidas entre e dentro dos grupos e sociedades”. No momento em que o processo de incorporação passa a ser dialógico, o modelo de multiculturalismo conservador dá lugar a um paradigma de multiculturalismo crítico, em que os conhecimentos tradicionais deixam de ser apenas objetos de estudo, ou produtos artísticos ou simbólicos para ser promovidos e passam a funcionar também como epistemologias alternativas às epistemologias ocidentais.

Questões propostas para o debate: Levando em conta o histórico e a análise proposta no paper desta oficina, como é possível, hoje, uma retomada pela dignidades dos saberes tradicionais e pela equanimidade na representação cultural dos povos? Quais caminhos possíveis, a partir da Convenção sobre a Proteção e a Promoção da Diversidade das Expressões Culturais?

Há o risco de produzirmos um novo “mito da diversidade”? Em que medida e quais os caminhos para manter a visão crítica dessa construção?

Que experiências podem ser observadas nos diversos países participantes desta oficina, que colaboram para a análise do texto e podem servir de referência para outras práticas?

Citando o texto: “Para construir uma diversidade cultural que não seja superficial, é preciso dar voz aos mestres dos conhecimentos tradicionais, dividir com eles, não apenas um lugar no cenário, mas a concepção e a construção do próprio cenário.” Como essa participação de mestres dos conhecimentos tradicionais nos processos e na construção do próprio cenário pode se dar de fato?

Além das questões acima, vale à pena dialogarmos sobre:

Do ponto de vista geográfico, quais as toponímias alternativas e as várias demarcações dos territórios que conformam o país e as regiões, nacionais e internacionais, em que vivem e por onde circulam os povos tradicionais. Promover as condições para um descentramento da leitura metropolitana dos territórios que não toma em consideração suas dimensões sagrada, mítica, étnica, lingüística, ambiental, etc.

Saberes lingüísticos – Abrir espaço para uma consciência da diversidade lingüística na iberoamerica. Cabe aqui, como nos casos anteriores, lembrar o ponto correspondente da referida Convenção da UNESCO: “Recordando que a diversidade lingüística constitui elemento fundamental da diversidade cultural, e reafirmando o papel que a educação desempenha na proteção e promoção das expressões culturais”.

Como Participar


Caros participantes da oficina Conhecimentos Tradicionais, preparatória para o “Seminário Internacional sobre Diversidade Cultural: práticas e perspectivas”, do Ministério da Cultura do Brasil em parceria com a Organização dos Estados Americanos.

Vamos começar com o paper elaborado pelo prof. José Jorge de Carvalho, da UnB. A idéia é que cada um contribua a partir de seu campo de atuação, formação e interesse.

O objetivo da oficina é então oferecer um espaço de reflexão e troca sobre os conhecimentos tradicionais que incorpore os mestres(as) e líderes das comunidades lado a lado com pesquisadores, representantes da sociedade civil e produtores culturais vinculados às comunidades, aos grupos tradicionais e às suas redes (ampliadas e migrantes) de arte e de saberes. Esse trabalho em colaboração, se executado a contento, poderá significar uma experiência de interculturalidade, em que cada participante fala a partir do seu horizonte cultural, ao mesmo tempo que se dispõe a incorporar aspectos dos horizontes dos outros participantes. As áreas de diálogo intercultural a respeito dos saberes tradicionais são múltiplas.

Vocês podem postar comentários às questões postadas diretamente no blog, ou se preferirem abrir novos temas e debates, podem enviar por e-mail para Marcela Bertelli, facilitadora desta oficina (marcelabertelli@terra.com.br). Todos os dias as mensagens enviadas serão postadas aqui no blog. Você também pode enviar seu mini-currículo e foto para a coluna "quem somos".

Ao final da oficina, todo o conteúdo será reunido e servirá de subsídio para a realização do “Seminário Internacional sobre Diversidade Cultural: práticas e perspectivas”, que acontecerá por meio de videoconferência às 9 horas no dia 14 de junho de 2007. Todos estão convidados para acompanhar o seminário, seja de algum ponto local disponível para reunir pessoas e promover a participação mais ampla possível, seja pela internet de qualquer local.

Qualquer dúvida sobre como participar, entrem em contato com a facilitadora da oficina: marcelabertelli@terra.com.br

Boa leitura e bom trabalho!

Videoconferência dia 14/06

A Secretaria de Políticas Culturais realizará a Oficina sobre Conhecimentos Tradicionais, no dia 14 de junho de 2007, às 9:00 h, em forma de videoconferência.
A Oficina pretende aprofundar as discussões a respeito dos temas acertados na Convenção sobre a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais, adotada pela Conferência Geral da Organização das Nações Unidas para Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em outubro de 2005. Este blog é preparatório para a Oficina, e todos estão convidados para participarem.
A Oficina contará com a participação de especialistas e diversos atores sociais. Haverá palestra em forma de videoconferência que conectará vários pontos do Brasil. O público que estiver presente às salas da videoconferência poderá participar diretamente e quem não puder comparecer terá a oportunidade de acompanhar a oficina pelo site do MinC.
Quem quiser participar, acesse o site do MinC para saber mais. Abaixo os locais onde haverá ponto de conexão ao vivo. Quem não puder comparecer a um ponto, pode acompanhar a videoconferência pela página do MinC.

ESTADO

ABRIGO

ENDEREÇO

Feira de Santana

UEFS

BR 116 Norte KM 03

Maranhão

UFMA

Av dos Portugueses s/n – Bacanga Auditório UFMA Virtual

Minas Gerais

UFMG

Av Antônio Carlos ,6627 Campus Pampulha – Prédio FAE Auditório Prof. Neidson Rodrigues

Pará

UNAMA

Av Alcindo Cacela,287 Umarizal

Pernambuco

Reitoria UFPE

Av Pf. Moraes Rego,1235 Auditório João Alfredo – Cidade Universitária

Rio G. Sul

FFFCMPA

R. Sarmento Leite,245 5º andar Centro

São Paulo

USP

Av Pf Luciano Gualberto – Trav. 03 nr 71 (CCE) Cidade Universitária

Salvador

UFBA

R. Ademar de Barros s/n - PAF 1 sala 104 Bairro Ondina

Rio G. Norte

UFRN

Centro de Convivência, no campus de Lagoa Nova da UFRN

Distrito Federal

RNP

SAS Qd05 Lote 06 Ed. IBICT sala 700

Distrito Federal

Católica Virtual

Universidade Católica de Brasília